
Coçou a cabeça e murmurou alguma coisa em uma língua secreta. Uma oração, talvez. Uma oração tão antiga quanto as cerimônias pagãs que remontam à pré-história das religiões. É a sua defesa contra o intruso, o desconhecido que pode invadir impetuosamente a nossa indiferença oferecendo a fantasia dos instintos liberados pela poesia, pela arte, estas atividades eróticas que substituem o amor convencional, o cotidiano ritual dos encontros e desencontros cuja função é nos manter ajuizadamente à margem de qualquer tentativa de arder.
Ajoelhou-se, me olhou como se eu fosse uma desconhecida e suplicou que nos tornássemos sensatos novamente.
Não faz mal, não tenha medo, uma das nossas molas se quebrou, mas não é uma desgraça, para tudo dá-se um jeito. É impossível irmos além. Já fomos longe demais. É suficiente permanecer no desejo de exceder sem, porém, ir até o fim, sem executar o passo final, fatal
Eu esperava algo assim, mas fiquei arrasada. Eu estava pronta para a aniquilação. Já não me satisfaz a ilusão da morte como se fôssemos personagens de um drama, de um filme, de algo que se sente intensamente, mas do qual escapamos aliviados quando fecha a cortina, quando a luz se apaga, quando o livro alcança o ponto final.
Talvez a morte seja apenas um mito, uma maneira natural e elegante do corpo enganar o tempo que o consome assumindo ou se convertendo em outra substância. O desconhecido me fascina.
Eu não chorei. Sorri cinicamente, como se tranqüilizada pelo anticlímax que se coaduna perfeitamente com a índole deste adorável covarde que, contudo, neste dia dos namorados, me trouxe flores, chocolates, uma garrafa de vinho e um livro com a Obra Poética Completa de Federico Garcia Lorca.
Carla Luma
.."porém, ir até o fim, sem executar o passo final, fatal
ResponderExcluiradorei.
eu estou procurando o livro que vc indiretamente me indicou. difícil encontrar por estas bandas
beijos
dani
Você continua me surpreendendo, Carla. O texto é ótimo, apesar de diferente dos seus outros textos, tanto no estilo quanto no "anima" da personagem. O resultado é que funcionou para mim com um autêntico anticlímax do texto que eu imaginava encontrar, soando-me, assim, como um recurso metalinguístico.
ResponderExcluirBeijos
Dani,
ResponderExcluirA edição que tenho é da ARX cujo site é www.edarx.com.br
Beijos,
Carla
Eu é que me surpreendo por surpreendê-lo, Fredinho.
ResponderExcluirBeeeeeeeeeeeiiiiiiiijos
E eu que não ganhei nem um beijinho nesse dia.
ResponderExcluirPior do que o anticlímax é o posclimax.
Bjinhos Carlinha adorada!
Tá carente é, Dilinha?
ResponderExcluirSe é por falta de beijinho, não sei se serve, mas mando um meu.
Décimo Sexto Cálice
ResponderExcluirTenho também seis rosas num quadro
Pintado pla mão divina ao alto erguida
De Arina revista no alfabeto soletrado
Da vida, como menina tão-só esculpida
No marfim dos teus gesto de lírio fugaz
Que por sorrir me apagas maior martírio
Me inspiras, absolves e anulas o delírio
Murmurando ordenada e tranquila paz.
Cada tem dez folhas verdes serrilhadas
Escondendo espinhos, afiado esmeril
E outras tantas emotivas pinceladas
Nas pétalas raiadas de luz primaveril
Convertida toda essa em tons estivais
Amadurecendo a promessa esperança
Nos chilreios e corridas de criança
Plos recreios de travessa ou colegiais.
Suposto é terem ainda uma fita de seda
A segurá-las e até aquela cesta de verga
Dando ao conjunto equilibrada e leda
Ordem, que ao ampará-las, também as erga
Como grito de cor no silêncio dos dias
Que assim nos conceda imenso regozijo
Combatendo o stress, ajeitando o juízo
No consenso das devolvidas alegrias.
Uma fita lilás, larga pétala de violeta
Entrançando o que demais és capaz
Com aquilo que somente eu te prometa
Na leitura irrequieta como pertinaz
Dos sinais que as estrelas vão ditando
Se audaz cometa cruza nosso momento
Propondo por condição o consentimento
De apanhá-los à mão, ardendo – e calando!
Um belo duo: Garcia Lorca e um bom vinho para celebrar o anti-clímaz da morte aparente.
ResponderExcluirJorge Manuel Brasil Mesquita
Lisboa, 03/07/2010
etpluribusepitaphius.blogspot.com
Oi, Carla. Vi que vc tem acompanhado o jeito como me expresso e vim retribuir o carinho e a visita. E eis que, ao chegar aqui, me deparo com quem leva sua arte à China. Puxa! Fiquei lisonjeada! Já estou lhe seguindo para acompanhar as novidades e confirmar o sucesso que certamente alcançará.
ResponderExcluirBjs
Um arremate e tanto para a ocasião, querida!
ResponderExcluirBeijos!
Olá, meus amores.
ResponderExcluirPeço-lhes desculpas pela longa ausência, especialmente a J.Maria, Jorge Manuel, Lu Dantas e Fabrício, que deixaram comentário.
Eu estava na África do Sul acompanhando a copa, ou, melhor dizendo, como acompanhante de um industrial paulistano que me pagou todas as despesas, além diárias generosas. Gente finíssima que, pra falar a verdade, só me comeu mesmo no dia que o Brasil perdeu pra Holanda. Comeu-me com uma fúria de quem parecia querer fazer em mim os gols que os nossos meninos não fizeram nos holandeses.
Ainda estou fora do fuso e meio confusa com as idéias, quando a cabeça se aprumar pretendo escrever sobre esta minha experiência, mas talvez eu antes me decida por uma semana de retiro espiritual, estou precisada.
Beeeeiiiiiiijos
Depois de ler seu conto, fiquei muito envaidecida de tê-la em meu blog. Teu texto é muito envolvente, uma leitura deliciosa e imprevisível com arremate brilhante. E, claro, muito bem escrito.
ResponderExcluirAcho que vc tem grandes chances de se tornal imortal ao lado de seus ídolos. Afinal a morte talvez seja mesmo só um mito.
E na África do Sul? Deve ter sido uma aventura e tanto. Escreva sobre. Será imperdível, certamente.
Uma semana perfeita pra vc.
Beijos.
Após outra longa ausência, só me resta pedir desculpas, sobretudo a você, Lua Nova, cujo comentário somente agora posso ler, e que muito me envaidece.
ResponderExcluirBeijos, querida
Parabéns! Adorei o seu blog!
ResponderExcluirAbraços,
Jorge.